POSTO DE ESCUTA Pedestrian at Best

Dada a conhecer ao mundo através do lançamento esporádico de EPs nos últimos anos, ainda assim a australiana Courtney Barnett conseguiu alimentar os desejos de uma falange cada vez maior de melómanos ansiosos em encontrar nela a novel descendente do mais puro rock "clássico". A verdade é que a música que ela ia revelando aos poucos deixava pistas de alguém que, apesar da tenra idade (26 anos), estava muito bem documentada sobre as pegadas decisivas do rock das últimas décadas e de como absorver-lhes as coordenadas essenciais para erguer uma linguagem capaz de tocar vários géneros e tempos algo díspares. Já quase tudo foi escrito sobre as heranças grunge do disco, também sobre a luminária sessentista indisfarçável, até sobre as pitadas de psicadelismo que temperam a mistura e lhe dão sentido maior. Esse composto é particularmente notório no primeiro álbum - genialmente baptizado Sometimes I Sit and Think, And Sometimes I Just Sit - e vem servido numa simplicidade que marca distâncias para o intelectualismo dominante no orbe indie actual; mais do que procurar alinhar-se com qualquer tendência, Barnett defende a autenticidade das suas canções. Guitarra, baixo, bateria, a trindade sacrossanta do rock...é preciso mais? E depois vêm as histórias, quase sempre humoradas e sempre bem escritas, cantadas com o mágico desencanto de quem se está nas tintas para os cânones do melodismo mais tradicional.

No fundo, a música de Barnett é refrescante por ser desprendida de tudo, tão deliciosamente perto da grandiosidade quanto da mais mundana das ingenuidades. Ou de como uma pode ser o catalisador imprevisto da outra. Destes jogos de correspondências só podia nascer um dos mais desafectados discos que o rock conheceu nos últimos tempos. E Courtney Barnett, mesmo estando a borrifar-se para isso ("Put me in a pedestal and I'll only disappoint you"), faz-se merecedora da atenção mediática nos anos vindouros. Para já, não decepciona ninguém.

Abril 27, 2015

Courtney Barnett Sometimes I Sit and Think, And Sometimes I Just Sit

Marathon Artists/Popstock, 2015

 

 

Crítica Filho da Mãe - Cabeça

7,7