POSTO DE ESCUTA u

A consagração quase unânime dos últimos anos, sobretudo depois da impressionante rendição universal a Good Kid, m.a.a.d. City, não apanhou Kendrick Lamar desprevenido. No lugar dele, o mais comum dos mortais colheria os louros do êxito e descansaria placidamente na (lucrativa) descoberta da galinha de ovos de ouro, limitando-se a replicar a fórmula com pequenas derivações e fazendo vida de estrela rica. Se prevalecesse essa "normalidade", To Pimp a Butterfly nem estaria perto de ser o densíssimo exercício de subversão que é, tanto no conceito como na execução. Não é uma descontinuidade absoluta da boa música que vinha no antecessor - nem fazia sentido que o fosse -, mas o californiano ensaia aqui uma apresentação diferente das suas ideias. Desde logo, a música é servida, a maior parte do tempo, na elasticidade de uma base instrumental jazzística em trio (piano, saxofone e baixo), dando ao disco uma ambivalência valiosa entre a densidade e a energia próprias de um improviso. Essa volubilidade instrumental acaba por  empurrar o registo vocal de Lamar para pontuais aventuras a que talvez nem ele antevisse semelhante sucesso ("u" é amostra paradigmática).


Em tudo o mais, a música de
To Pimp a Butterfly é labiríntica e esteticamente plural (passa com coerência por várias escolas)  e, também por isso, requer zelo redobrado na audição. É música sem concessões, deliciosamente caótica e dissonante, cada vez mais longe do formalismo radio-friendly e com clara intenção de motim estrutural. Nesse particular, Lamar empresta ao rap moderno o quinhão de surrealismo apenas ao alcance dos predestinados e junta-lhe dimensões narrativas que espelham cruamente a ainda intolerável fragilidade negra na América bélica e abusadora de hoje. E abrir o disco com um sample de "Every Nigger is a Star", do jamaicano Boris Gardiner, é sintoma da convicção insurgente de Kendrick Lamar, também ponderosamente ilustrada na capa. E se há alguém com autoridade artística para expor podres, atropelar poderes instituídos e festejar nos jardins da Casa Branca, é certamente ele.

Abril 23, 2015

Kendrick Lamar To Pimp a Butterfly

Top Dawg Entertainment/Universal, 2015

 

 

Crítica Filho da Mãe - Cabeça

8,4