POSTO DE ESCUTA Delicado

Não é preciso dedicar muitos minutos à audição deste Casulo para perceber que algo mudou nos horizontes musicais de Márcia Santos. Depois de e sobretudo do muito mediatizado dueto com JP Simões em "A Pele que Há em Mim", a lisboeta saltou para o primeiro plano da música nacional e logo lhe colaram rótulos toscos (alguns pejorativos), todos em volta do conceito de miúda indie e do facto de cantar em português, como se esses fossem universos incompatíveis e sem lugar no burgo. Parecia que, de repente, cantar (bem) sem recorrer ao pragmatismo da pop orelhuda se convertia num qualquer pecadilho que urgia atalhar com venenos. Felizmente, a tal "miúda indie" não só não se deixou contaminar por isso, como soube operar esses contextos em seu favor, pagando-lhes a mais justa indiferença e centrando-se nas coisas essenciais a si (foi mãe durante a idealização do álbum) e à sua música. E a ironia suprema é que, mantendo as premissas estéticas que notabilizaram Márcia no último par de anos, Casulo soa mais maduro, mais equilibrado e não é mera resposta às expectativas. Claro que o núcleo basilar continua a ser o binómio voz/guitarra, mas há oportuníssimas interferências que redimensionam a sobriedade melódica de Márcia, sem somar desordem nem espalhafato, apenas ajudando a desenhar os cenários emocionais das canções. E que belas (e muito charmosas) canções moram aqui. 

Outubro 22, 2013

Márcia Casulo

EMI, 2013

7,6/10