O desfile lírico do novo álbum de Scout Niblett não deixa espaço para segundas interpretações: mora nestas entrelinhas uma história de amor corrompido e as suas incontornáveis ondas de choque emocional. Pouco importam as causas e se o agente corruptor é o tempo, as circunstâncias, os momentos ou os delitos de carácter, o que sobra é uma desolação que ensaia, depois, várias formas de catarse, ora vingativa, ora indulgente. Da reunião dessas energias, nasceu um dos mais pessoais registos de Niblett, também um dos mais viscerais e, por isso mesmo, servido sem adornos estéticos, antes laconicamente resumido à guitarra isolada de sempre, com pontuais aparições da percussão a sublinharem a aspereza e a gravidade do discurso. 

 

Não é facto novo esta confessada inaptidão de Niblett para os relacionamentos emocionais, ela tem feito disso a matéria-prima de um cancioneiro que subscreve, sem se fechar nela, uma noção de canção saudosa do grunge mais depressivo. Nesse particular, embora cáusticas e tensas como antes, as canções de It's Up to Emma são produto de um conforto maior na mágoa, daquela habituação à desilusão a que as convenções sociais chamam envelhecimento. Aos 40 anos, Niblett já somou muitos quilómetros na estrada da vida e a redenção, não obstante continuar a fomentar ilusões, não é já uma obsessão.  

Outubro 7, 2013

Scout Niblett It's Up to Emma

Drag City, 2013

7,6/10